Há exatos dois dias,
Ao atravessar a rua,
Deparei-me com um armado vigia,
Que observava atentamente,
A movimentação de quem ia e vinha.
Olhou para o casal que discutia,
Para um grupo de adolescentes,
Que uma garrafa de teor alcoólico portaria,
Para o vendedor de quadros,
Para o camelô,
Para os garis.
Tudo ali que era parado ou se movia,
O vigia armado, atentamente via.
Escoltava um outro grupo de armados vigias.
Que saltavam de um carro forte,
Que nem bala de metralhadora trespassaria.
Carregavam enormes sacolas fortificadas,
Que só de ver, conteriam objetos de vultuosa valia.
Não tardou para surgir ali um faminto,
De olhos em sangue, de boca em brasa,
De suas mãos, um líquido amargo expelia.
Todo o povo cessou de mover-se,
Para notar o que ali acontecia.
E todo armamento que a frota carregava,
Ao faminto agora se dirigia.
Quando dos olhos em sangue do faminto,
Um feixe de raio luziria,
E a visão atenta dos armados vigias, se obscurecia.
Em roupantes assustados,
Atiraram os vigias a esmo para todos os lados.
Os tiros atingiram o vendedor de quadros
E camelô e o casal que discutia.
Quando da boca em brasa do faminto,
Um vômito gélido se derramaria,
E às pernas dos atentos vigias paralisaria.
E toda multidão que ali inerte estaria,
Agora que o faminto excretava por todos os lados,
Corriam em desordenado rumo,
Numa suplicante gritaria.
Em flamejantes dores de congelamento físico,
Largaram ao chão as enormes e fortificadas sacolas de vultuosa valia,
Os atentos armados vigias.
E o ouro que ali dentro havia, como lava de vulcão agora escorria,
Quando, finalmente, ninguém mais na redondezas se via,
O faminto dirigiu-se a um boteco abandonado,
Lavou suas mãos, que um líquido amargo expelia,
E roubou uma coxinha.
28 Maio 2012
22 Novembro 2011
Nem nomes, só máscaras.
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| Capa do jornal Folha de São Paulo de 18/11/2011 |
O sangue escorria de sua testa. Sua temperatura misturava-se com a do quase inverno e desenhava em sua face penínsulas continentais. Era um mundo derramado que invadia sua boca e abafava seu grito. Espirrava gotículas ao ar, que chocavam-se com outras faces tão limpas; escudos. Arrastaram-no: “ qual seu nome?”
- Tenho o nome que me representa; responde o acossado.
Fitou a imagem, o semblante, o mundo escorrido: “um rosto ensanguentado? Um choro de dor e desespero?”; interroga o inquiridor.
- Pois assim me reconhecem!
Sabia muito pouco do acossado: “seu sangue de fora não lhe representa. A fração que que lhe fugiu das veias da derme é mínima, insignificante; você tem muitos outros sangues!”
- Pois este sangue fugiu-se de mim, fragmento do que sou, e espirrou em outras faces tão limpas. Escorre um pouco em seu escudo, veja! – Prostrou-se silencioso e calmo, quis saber um pouco mais de si: “qual seu nome?”; interrogou ao inquiridor que não entendia quase nada de representar: “eu sou este que te vê.”
O momento basta para representar. Nunca veremos todos os sangues, pois quando todos os sangues fugirem ...
19/11/2011
17 Outubro 2011
As Quatro Estações
Ficou serena em seu encanto diante da atmosfera apraz que de trás lhe traria, por detrás das agradáveis sensações, inspirações internamente suspiráveis. Não era por nada seu esplendor. O nada, nada fica, nada traz ou faz, nada é. Não é frio, quente ou ameno. Não é sim, nem não. Não é nada. Era por pouco, por coisa singela, que muito lhe era. Pelo sopro suave do refrigério que exalava de Si naquele dia em que as trevas eram iguais à luz. E tudo se fazia em um só em Si. E um Sol em Si lhe trazia o Tudo. Era hora de desabrochar, de emanar seu brilho, de suspirar seu ar. Voar ao vento, avivar suas cores, libertar sua alma dos dissabores, de sobrenadar seu caminhar.
Uma vez que fora no simples abrir e fechar dos olhos que enxergou o novo mundo de um solo fértil de belezas que almejava cultivar. Brotariam brancos lírios em seu jardim que abraçariam tulipas, dançariam com gerberas e copulariam com orquídeas. E de suas cores ecoariam melodias tão formosas que fulgores transluziriam ao céu que igualmente sereno ficaria. E de seus néctares, como abelha, faria o mel do dia que em favos guardaria para o doce preservar. E como anjo descido do firmamento traria sua lira para a bem-aventurança anunciar. E de lá iria ter ao rio e como lótus flutuaria. E iria ter ao mar e como peixe ao nadar se moveria. Posto que largos agora seriam seus dias e tão mais dilatados seus músculos e nervos, tão mais forte seu coração batia. E ouviria nitidamente o brado dos átomos, e veria o vibrar da ultravioleta e do tamanho do universo seria, pois tudo se fazia um só em Si. Era o épico elegido da harmonia, a simétrica loa da boa-vontade e da fé. E de seu pâncreas vociferava o dito do divino e da hipófise, a redenção. E com suas escamas tatearia a maciez áspera do concreto naquele dia em que trevas e luz eram iguais.
Seus passos seguiam seguros e exatos sobre o chão que já tinha de cor. Sabia de onde vinha e para onde teria de rumar. Para o mesmo lugar aonde estariam os frutos semeados que teria de apanhar. Já os conhecia desde o caroço até o carpo, pois a certeza das sementes é que uma hora hão de se frutificar, e a certeza dos frutos é que uma hora hão de semear. E ia plena e resoluta por seu jardim plano e ascendente que ela própria semeou, e ia firme e confiante pelos caminhos que ela própria estabeleceu, e ia segura e arvorada nas leis que ela própria decretou, pois a certeza da boa-vontade é que uma hora há de se ter fé, e a certeza da fé é a incerteza daquele dia em que trevas e luz se faziam iguais e tudo era um só em Si. E tão mais largos eram os seus dias, mais forte seu coração batia e mais sangue em suas veias corria e mais dilatados seus músculos e nervos, mais largos seriam seus dias. O sopro, ora suave, se acalorou.
O ar bafejava ardente em suas mãos que perscrutavam a atmosfera em busca de mais largueza. Sondavam, como luneta, os infinitos pontos do universo. Era por mais esplendor o seu arrebatamento. E expandia-se freneticamente em busca do Sol em Lá que não luzia em Si. Era hora de movimentar, de ampliar seu brilho, de transpirar o líquido da derme porosa na incessante busca pela impermeabilidade. Correr pelos campos por todos seus cantos, sombrear seu corpo, esquecer sua alma, agilizar o caminhar. Seria o riso dos anjos e o gozo de Eros, visto que fora na vigorosa diástole que sentiu o prazer hedônico que ansiava cultuar. Seria a benitoíta à fluorescência aspirar e teria a voluptuosidade de Afrodite a Antero censurar. E sua carne se faria de mar a navegar, e suas coxas de útero ao vinho conceber. E como Lúcifer advindo da ordem dos querubins, aos cegos da caverna alumiará, e com seu hino a entonar os persuadirá à bem-aventurança conquistar. E de lá iria ter ao rio e como boto cortejaria, e iria ter ao mar e como sereia aos marujos encantaria. E vibraria a ultravioleta que do tamanho do universo seria, e bradaria, como átomo fissurado, a sua excitação naquele dia em que a luz teria maior medida e às trevas esclareceria. E ao passo que mais e mais luz se tinha, mais sombra se fazia, e aos passos mais largos que corria, mais permeável ficaria. Era o épico elegido da euforia, a ebriedade demente das paixões da pura-vontade e da insensatez. E sua bílis expeliria a cólera do mendigo e da hipófise, a redenção.
Naquele dia em que a luz se apoderaria das trevas, o Sol em Lá era sua sombra, e com seu sangue escorreria na aspereza sólida, enquanto seus músculos e nervos hipertrofiam, pois a certeza da incerteza é a esperança. E seguia pela calada sorrateira naqueles campos que já não tinha de cor, e via míope e turvamente a luz que luzia em Lá, e ia trépida e acanhadamente pelo tribunal que Lá se constituiu. E o bafo, que ora lhe ardeu, agora lhe brochou, pois a certeza da esperança é o tempo, naquele dia em que sua sombra era mais nítida e as trevas se rendiam à luz.
O pranto ondeado da resignação umedeceu sua face. Fortes correntes de ar sopravam do norte para o sul, e assim se ia, como uma embarcação sem mastro a velar as vicissitudes do tempo ao ocaso. Era hora de ceder, de ceifar os frutos semeados, de empalidecer a relva do campo em todos seus cantos, pois era por algum encanto o choro em Si, já que fora no súplice fletir dos joelhos que cerrou suas mãos com os calejados dedos dos empedernidos sonhos. E Prosternou-se sôfrega abaixo da atmosfera densa que por de cima lhe traria, por debaixo das angustiantes sensações, suspiros internamente irrespiráveis. Seria a prece do rezador a esmo a interceder por salvação, e de seu terço escoariam lágrimas a encharcar suas vestes. E o Tudo se fazia em só em Si. E um Sol em Si não lhe fazia. E sua pele enrugaria, naquele dia em que as trevas eram iguais à luz. E sua sombra lhe envolveria. E não ouviria a sinfonia tocar, pois tão gastos eram seus músculos e nervos que só a fadiga lhe restaria. E como anjo desalado tombaria, que de sua lira desprovido se calaria. E de lá iria ter ao rio e como pedra afundaria. E iria ter ao mar que de petróleo se cobriria e, como plâncton, se asfixiaria.
Seus passos perturbados seguiam lentos e insustentáveis sob o chão que se tinha por sobre Si que já não se sabia por onde iria caminhar até chegar em algum lugar que não estaria. Era a tragédia elegida da agonia, o destinado descaminho da desvontade e da invalidez. A onipresente cadência da onimpotência ôntica. A concretada epifania de Zeus, e de seu baço exsudaria o visgo do leproso e da hipófise, a redenção. E com seu barro, o concreto áspero se tornaria naquele dia em que trevas e luz eram iguais, pois a certeza do tempo é a mudança. E o suplício agonizante se calou.
Ficou inerte em seu desencantado derramamento que se fazia sob o chão que lhe pesava por sobre Si. Trazia o nada que nada era. Era hora de nada ficar, de apagar seu brilho, de sufocar seu suspiro. Seria Hipnos a Morfeu silenciar e a Tânatos abraçar. Era pela ausência sua existência no vácuo naquele dia em que nem a ultravioleta luziria. E de lá hibernaria junto a Nix e se tornaria sua célebre aprendiz. Era a tragédia elegida da prostração, a estagnação inerme da má-vontade e da languidez, pois a certeza da mudança é que uma hora há de chegar sua vez. Pois fora mesmo no ocasional desencontro do Sol em Si com o Sol em Lá que as trevas se fizeram em maior medida e à luz escureceriam. E como uma só sombra, seria do tamanho do universo, visto que tudo se fazia em um só em Si. E tão mais largas eram suas noites, mais pulverizados seus músculos e nervos, e tão mais largas eram suas noites, mais estreita sua alma, e tão mais estreita sua alma, mais nada ficava. E iria reclinar-se sobre o vazio que se tinha, e tatearia o pretume com seu cimento, e ouviria o sussurro segredado do novo mundo de um solo pútrido de tristezas no qual iria se enterrar. E de lá iria ter ao pó e, como barro, ao pó cederia. E iria ter ao átomo e do tamanho do universo ficaria.
Seu abatimento seguia seguro e exato sob o destino que já tinha de cor. Sabia de onde vinha e para onde teria de rumar. Para o mesmo lugar aonde estariam as sementes que iriam frutificar, e veria as raízes dos recônditos campos a se inclinarem para desabrocharem, e seria a seiva da terra a sua hora aguardar, e ao favo encontraria para do doce se alimentar do mel do dia, e como abelha rainha, entonaria sua melodia, e o vácuo se dissiparia e um feixe de luz surgiria no horizonte, e da serenata cantaria pelos campos o encanto por todos seus cantos naqueles dias em que as trevas se igualariam à luz.
Uma vez que fora no simples abrir e fechar dos olhos que enxergou o novo mundo de um solo fértil de belezas que almejava cultivar. Brotariam brancos lírios em seu jardim que abraçariam tulipas, dançariam com gerberas e copulariam com orquídeas. E de suas cores ecoariam melodias tão formosas que fulgores transluziriam ao céu que igualmente sereno ficaria. E de seus néctares, como abelha, faria o mel do dia que em favos guardaria para o doce preservar. E como anjo descido do firmamento traria sua lira para a bem-aventurança anunciar. E de lá iria ter ao rio e como lótus flutuaria. E iria ter ao mar e como peixe ao nadar se moveria. Posto que largos agora seriam seus dias e tão mais dilatados seus músculos e nervos, tão mais forte seu coração batia. E ouviria nitidamente o brado dos átomos, e veria o vibrar da ultravioleta e do tamanho do universo seria, pois tudo se fazia um só em Si. Era o épico elegido da harmonia, a simétrica loa da boa-vontade e da fé. E de seu pâncreas vociferava o dito do divino e da hipófise, a redenção. E com suas escamas tatearia a maciez áspera do concreto naquele dia em que trevas e luz eram iguais.
Seus passos seguiam seguros e exatos sobre o chão que já tinha de cor. Sabia de onde vinha e para onde teria de rumar. Para o mesmo lugar aonde estariam os frutos semeados que teria de apanhar. Já os conhecia desde o caroço até o carpo, pois a certeza das sementes é que uma hora hão de se frutificar, e a certeza dos frutos é que uma hora hão de semear. E ia plena e resoluta por seu jardim plano e ascendente que ela própria semeou, e ia firme e confiante pelos caminhos que ela própria estabeleceu, e ia segura e arvorada nas leis que ela própria decretou, pois a certeza da boa-vontade é que uma hora há de se ter fé, e a certeza da fé é a incerteza daquele dia em que trevas e luz se faziam iguais e tudo era um só em Si. E tão mais largos eram os seus dias, mais forte seu coração batia e mais sangue em suas veias corria e mais dilatados seus músculos e nervos, mais largos seriam seus dias. O sopro, ora suave, se acalorou.
O ar bafejava ardente em suas mãos que perscrutavam a atmosfera em busca de mais largueza. Sondavam, como luneta, os infinitos pontos do universo. Era por mais esplendor o seu arrebatamento. E expandia-se freneticamente em busca do Sol em Lá que não luzia em Si. Era hora de movimentar, de ampliar seu brilho, de transpirar o líquido da derme porosa na incessante busca pela impermeabilidade. Correr pelos campos por todos seus cantos, sombrear seu corpo, esquecer sua alma, agilizar o caminhar. Seria o riso dos anjos e o gozo de Eros, visto que fora na vigorosa diástole que sentiu o prazer hedônico que ansiava cultuar. Seria a benitoíta à fluorescência aspirar e teria a voluptuosidade de Afrodite a Antero censurar. E sua carne se faria de mar a navegar, e suas coxas de útero ao vinho conceber. E como Lúcifer advindo da ordem dos querubins, aos cegos da caverna alumiará, e com seu hino a entonar os persuadirá à bem-aventurança conquistar. E de lá iria ter ao rio e como boto cortejaria, e iria ter ao mar e como sereia aos marujos encantaria. E vibraria a ultravioleta que do tamanho do universo seria, e bradaria, como átomo fissurado, a sua excitação naquele dia em que a luz teria maior medida e às trevas esclareceria. E ao passo que mais e mais luz se tinha, mais sombra se fazia, e aos passos mais largos que corria, mais permeável ficaria. Era o épico elegido da euforia, a ebriedade demente das paixões da pura-vontade e da insensatez. E sua bílis expeliria a cólera do mendigo e da hipófise, a redenção.
Naquele dia em que a luz se apoderaria das trevas, o Sol em Lá era sua sombra, e com seu sangue escorreria na aspereza sólida, enquanto seus músculos e nervos hipertrofiam, pois a certeza da incerteza é a esperança. E seguia pela calada sorrateira naqueles campos que já não tinha de cor, e via míope e turvamente a luz que luzia em Lá, e ia trépida e acanhadamente pelo tribunal que Lá se constituiu. E o bafo, que ora lhe ardeu, agora lhe brochou, pois a certeza da esperança é o tempo, naquele dia em que sua sombra era mais nítida e as trevas se rendiam à luz.
O pranto ondeado da resignação umedeceu sua face. Fortes correntes de ar sopravam do norte para o sul, e assim se ia, como uma embarcação sem mastro a velar as vicissitudes do tempo ao ocaso. Era hora de ceder, de ceifar os frutos semeados, de empalidecer a relva do campo em todos seus cantos, pois era por algum encanto o choro em Si, já que fora no súplice fletir dos joelhos que cerrou suas mãos com os calejados dedos dos empedernidos sonhos. E Prosternou-se sôfrega abaixo da atmosfera densa que por de cima lhe traria, por debaixo das angustiantes sensações, suspiros internamente irrespiráveis. Seria a prece do rezador a esmo a interceder por salvação, e de seu terço escoariam lágrimas a encharcar suas vestes. E o Tudo se fazia em só em Si. E um Sol em Si não lhe fazia. E sua pele enrugaria, naquele dia em que as trevas eram iguais à luz. E sua sombra lhe envolveria. E não ouviria a sinfonia tocar, pois tão gastos eram seus músculos e nervos que só a fadiga lhe restaria. E como anjo desalado tombaria, que de sua lira desprovido se calaria. E de lá iria ter ao rio e como pedra afundaria. E iria ter ao mar que de petróleo se cobriria e, como plâncton, se asfixiaria.
Seus passos perturbados seguiam lentos e insustentáveis sob o chão que se tinha por sobre Si que já não se sabia por onde iria caminhar até chegar em algum lugar que não estaria. Era a tragédia elegida da agonia, o destinado descaminho da desvontade e da invalidez. A onipresente cadência da onimpotência ôntica. A concretada epifania de Zeus, e de seu baço exsudaria o visgo do leproso e da hipófise, a redenção. E com seu barro, o concreto áspero se tornaria naquele dia em que trevas e luz eram iguais, pois a certeza do tempo é a mudança. E o suplício agonizante se calou.
Ficou inerte em seu desencantado derramamento que se fazia sob o chão que lhe pesava por sobre Si. Trazia o nada que nada era. Era hora de nada ficar, de apagar seu brilho, de sufocar seu suspiro. Seria Hipnos a Morfeu silenciar e a Tânatos abraçar. Era pela ausência sua existência no vácuo naquele dia em que nem a ultravioleta luziria. E de lá hibernaria junto a Nix e se tornaria sua célebre aprendiz. Era a tragédia elegida da prostração, a estagnação inerme da má-vontade e da languidez, pois a certeza da mudança é que uma hora há de chegar sua vez. Pois fora mesmo no ocasional desencontro do Sol em Si com o Sol em Lá que as trevas se fizeram em maior medida e à luz escureceriam. E como uma só sombra, seria do tamanho do universo, visto que tudo se fazia em um só em Si. E tão mais largas eram suas noites, mais pulverizados seus músculos e nervos, e tão mais largas eram suas noites, mais estreita sua alma, e tão mais estreita sua alma, mais nada ficava. E iria reclinar-se sobre o vazio que se tinha, e tatearia o pretume com seu cimento, e ouviria o sussurro segredado do novo mundo de um solo pútrido de tristezas no qual iria se enterrar. E de lá iria ter ao pó e, como barro, ao pó cederia. E iria ter ao átomo e do tamanho do universo ficaria.
Seu abatimento seguia seguro e exato sob o destino que já tinha de cor. Sabia de onde vinha e para onde teria de rumar. Para o mesmo lugar aonde estariam as sementes que iriam frutificar, e veria as raízes dos recônditos campos a se inclinarem para desabrocharem, e seria a seiva da terra a sua hora aguardar, e ao favo encontraria para do doce se alimentar do mel do dia, e como abelha rainha, entonaria sua melodia, e o vácuo se dissiparia e um feixe de luz surgiria no horizonte, e da serenata cantaria pelos campos o encanto por todos seus cantos naqueles dias em que as trevas se igualariam à luz.
26 Agosto 2011
Retrato, Espelho, Segredo: Partículas do Ser
(triptico poético minimalista)
Fotografia de Família
na morte da luz, o tempo cessa de soar. crava a luz na superficie sólida. escoa a luz na superficie morta. soa que o tempo cessa de escoar, luz onda, crava morta. a luz se crava na superficie; a superficie enterra a luz. na imobilidade da luz, emulsão. a luz particula se crava solida. há particula do não-movimento. estática. a imagem escoa na superficie sólida. o tempo morto - outrora. a memória toca a retina. lembra. chora. soa sólida. a particula se crava na superficie estática – morta.
Retrato da Infanta Defunta
o fúnebre bailado de um corpo sem resquício. sopro sem sentido. diástole sem sentido. sistole sem sentido. o rumo desvanecido do residuo oco. o tempo pouco. o pouco osso. a pouca pele. o choro e o gozo sem sentido. o ritmo desvanecido do tempo oco. o sopro sem resquicio. o bailado sem sentido. o sopro sem ritmo. sem diástole, nem sistole – a pele se afasta do osso. o pouco corpo desvanecido.
Reflexo do Espelho
o ferro e a areia são reflexo um do outro. sendimento do carbono. a amálgama dos fósseis espelha o fletir dos ombros. não nota o piscar dos olhos. ver e sentir são reflexo um do outro. alquimia do corpo. não há distinção entre fóssil e sangue. sendimento do carbono. não nota o cerrar dos olhos. a amálgama dos olhos espelha o fletir do ombros. alquimia dos fósseis. o cerrar dos olhos e o fletir dos ombros são reflexo um do outro. não há distinção entre ferro e corpo
sendimento do carbono.
Fotografia de Família
na morte da luz, o tempo cessa de soar. crava a luz na superficie sólida. escoa a luz na superficie morta. soa que o tempo cessa de escoar, luz onda, crava morta. a luz se crava na superficie; a superficie enterra a luz. na imobilidade da luz, emulsão. a luz particula se crava solida. há particula do não-movimento. estática. a imagem escoa na superficie sólida. o tempo morto - outrora. a memória toca a retina. lembra. chora. soa sólida. a particula se crava na superficie estática – morta.
Retrato da Infanta Defunta
o fúnebre bailado de um corpo sem resquício. sopro sem sentido. diástole sem sentido. sistole sem sentido. o rumo desvanecido do residuo oco. o tempo pouco. o pouco osso. a pouca pele. o choro e o gozo sem sentido. o ritmo desvanecido do tempo oco. o sopro sem resquicio. o bailado sem sentido. o sopro sem ritmo. sem diástole, nem sistole – a pele se afasta do osso. o pouco corpo desvanecido.
Reflexo do Espelho
o ferro e a areia são reflexo um do outro. sendimento do carbono. a amálgama dos fósseis espelha o fletir dos ombros. não nota o piscar dos olhos. ver e sentir são reflexo um do outro. alquimia do corpo. não há distinção entre fóssil e sangue. sendimento do carbono. não nota o cerrar dos olhos. a amálgama dos olhos espelha o fletir do ombros. alquimia dos fósseis. o cerrar dos olhos e o fletir dos ombros são reflexo um do outro. não há distinção entre ferro e corpo
sendimento do carbono.
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