23 fevereiro 2007

Peça em Um Ato

Os dias, um-após-o-outro, eram-lhe uma constante representação. Não havia, nem sequer seria prudente se houvesse, um único movimento
sem direção
no tirânico tablado da figuração.
Ela subia ao palco. O roteiro decorado. Falas demarcadas. Ações delimitadas. Sem contestação. Pelo contentamento momentâneo de se ter do público
a ovação.
Assim se conhecia. "Sou eu". Indicavam-lhe quem seria. Ora aclamada, ora desprezada. Ria e chorava no camarim. De lá, maquiava-se e vestia-se, penteava-se e refletia:
"Toda a vida é uma brincadeirinha boba de encenação,
do majestoso jogo da dramaturgia"
A isso se prendia.
Liberdade seria, somente no pensamento então. No palco haveria de ser quem deveria. E devia haver um dia em que morreria. Uma cena trágica, eu diria. Em cima do palco, perante à numerosa platéia, uma violenta dor no peito a assaltaria. Ajoelharia-se
sem que nada pudesse fazer.
E devia haver que seu tronco cederia, e com os cotovelos, o chão tocaria. Sua roupa rasgaria. E toda sua obra, meticulosamente engendrada, ali se desvanecia.
Assim, inerte!
Assim, inerme!
Era a imagem que o público assistia. E ainda que não quisesse, esta imagem também dela seria.

6 comentários:

Ana disse...

Oi... vim aqui ver o que se passa...rs
Seus textos sempre requerem alguma reflexão...
acho que to meio sem saco para reflexões.. ahahaha
mas legal.. as coisas mudaram um pouco por aqui.. eu acho... ahaha..
sei lá.
bjs.

Ana disse...

Oi... vim aqui ver o que se passa...rs
Seus textos sempre requerem alguma reflexão...
acho que to meio sem saco para reflexões.. ahahaha
mas legal.. as coisas mudaram um pouco por aqui.. eu acho... ahaha..
sei lá.
bjs.

mia disse...

... quem sabe reunir esses textos em um livro?
...fico feliz de há muito eu ter me dado o posto de autora oficial da releitura de seus posts... jeje
¡Te quiero!

B-sos dulces!

Thiago Quintella disse...

é por isso que em todas as manifestações artísticas vemos a realidade... de cada um de nós!!

Silvio S. disse...

Achei o teu texto do caralho! E olha que só li alguns parágrafos. Vejo uma janela nova em meio a tanta mesmice. Pode ser falta de referência minha ou mais um surto maníaco (os moderadores de humor derretaram no fundo da gaveta), mas ouso dizer que senti em ti a força dos grandes mestres -- se é que isto interessa. Eu queria escrever assim também - poesia e porrada e instigação. Muito prazer em te conhecer, Danielle!

Silvio S. disse...

errata (se é que isto tbém interessa): derreteram, ao invés de derretaram. Não falei que era maníaco?